Quedas nos idosos: perceber o risco e manter a mobilidade
As quedas são uma das principais ameaças à autonomia na velhice mas raramente acontecem de forma isolada. Neste artigo explico como a perda de força, o medo de cair e a redução da mobilidade podem criar um ciclo difícil de interromper e o que podemos fazer para o prevenir.
QUEDASFISIOTERAPIAIDOSOS
Jean Gonçalves
8/26/202610 min read


Uma queda pode parecer um acontecimento imprevisível, porém, muitas vezes, é o resultado de pequenas alterações que se foram acumulando ao longo do tempo, como perdas de força, alterações do equilíbrio, menor mobilidade ou medo de caminhar.
Quando uma pessoa idosa cai é natural que a primeira preocupação seja perceber se existem lesões. Depois dessa preocupação inicial, costuma surgir outra pergunta, sobretudo entre os familiares mais próximos:
Porque é que isto aconteceu?
Por vezes existe uma explicação evidente. A pessoa idosa tropeçou num obstáculo, escorregou ou perdeu o equilíbrio ao levantar-se. Noutras situações, a queda surge no contexto de alterações que já vinham acontecendo há algum tempo e que talvez não tivessem sido valorizadas: Começou a andar mais devagar; Levantava-se com mais dificuldade; Evitava escadas; Passou a apoiar-se nos móveis de casa; Deixou de fazer as caminhadas habituais; Sentia-se menos segura quando saía de casa...
Uma queda pode ser o momento em que estas alterações se tornam visíveis.
A Organização Mundial da Saúde considera as quedas um importante problema de saúde pública e identifica vários fatores que podem contribuir para o risco de queda, incluindo inatividade física, perda de equilíbrio, menor mobilidade, alterações da visão, determinadas doenças, alguns medicamentos e condições pouco seguras no ambiente.
Perceber esta relação é importante porque prevenir uma queda não significa apenas tentar impedir que a pessoa caia. Significa preservar a capacidade de continuar a viver e a movimentar-se com segurança e autonomia.
O risco de queda raramente depende de um único fator
Torna-se tentador procurar uma explicação simples para uma queda.
“Foi distração”
“Foi porque o chão estava molhado”
“É normal com a idade...”
Na realidade, o risco costuma resultar da combinação de vários fatores e quase todos modificáveis!
A força muscular, o equilíbrio e a mobilidade têm um papel particularmente importante. Também podem coexistir alterações da visão, problemas neurológicos, doenças crónicas, efeitos de medicamentos, inatividade física, alterações dos pés ou do calçado e fatores relacionados com o ambiente.
Duas pessoas da mesma idade podem, por isso, ter riscos muito diferentes.
Uma pode ter força suficiente para se levantar facilmente, mas sentir-se instável quando muda de direção. Outra pode ter um equilíbrio razoável, mas já não ter força suficiente para se levantar de uma cadeira baixa. Outra pode ter boas capacidades físicas, mas ter desenvolvido um medo tão grande de cair que começou a evitar andar.
Por isso, a pergunta mais útil não é apenas “como evitar que volte a cair?”. É também “o que mudou na capacidade desta pessoa para se movimentar com segurança?”
Há sinais que podem aparecer antes de uma queda
Muitas famílias só começam a pensar em risco de queda depois de existir uma primeira queda.
Nem sempre é preciso esperar por este primeiro evento que pode causar lesões graves como a fratura do colo do fémur.
Algumas alterações podem surgir gradualmente e merecem atenção, sobretudo quando começam a interferir com atividades que antes eram simples:
levantar-se da cadeira tornou-se mais difícil;
é preciso usar a força dos braços para conseguir levantar-se;
a pessoa idosa caminha mais devagar ou com passos mais pequenos;
começou a apoiar-se nos móveis;
evita subir ou descer escadas;
sente-se insegura quando anda fora de casa;
passou a precisar de ajuda para tarefas que anteriormente fazia sozinha;
deixou de fazer determinadas atividades por receio de cair.
A história de quedas anteriores também é particularmente relevante. Uma avaliação do risco deve ter em conta não só o número de quedas, mas também dificuldades de marcha ou equilíbrio e outros fatores que possam aumentar a vulnerabilidade.
A existência de 1 ou mais quedas no último ano é por si só um fator de aumento do risco de queda!
A recomendação clínica atual é precisamente olhar para a pessoa como um todo quando existe risco aumentado, em vez de procurar uma única causa isolada.
Depois de uma queda, pode instalar-se um ciclo difícil
Existe outro problema que pode ser menos visível do que a própria queda.
O medo de voltar a cair.
Depois de uma queda, é perfeitamente compreensível que a pessoa fique mais cautelosa. Começa a levantar-se mais devagar, olha com mais atenção para o chão e pode evitar situações em que se sente insegura.
O problema surge quando essa prudência começa a limitar demasiado a vida diária.
A pessoa deixa de sair. Evita as escadas. Caminha menos. Passa mais tempo sentada. Pede ajuda para tarefas que antes fazia sozinha.
Com menos movimento, existe também menos estímulo para manter a força e a capacidade física.
Pode formar-se um ciclo difícil:
Queda → medo de voltar a cair → menos movimento → perda de capacidade → maior insegurança → maior risco de queda
O medo de cair pode, portanto, ser mais do que uma consequência emocional de uma queda. A OMS reconhece que, em algumas pessoas, o medo pode levar à redução da atividade e contribuir para a perda de força, equilíbrio, confiança e qualidade de vida.
Proteger uma pessoa não significa necessariamente dizer-lhe para fazer cada vez menos coisas.
Às vezes, a melhor forma de aumentar a segurança passa precisamente por recuperar as capacidades que permitem à pessoa fazer mais coisas com confiança.
Força, equilíbrio e mobilidade trabalham em conjunto
Para se levantar de uma cadeira é necessária força. Depois de ficar de pé, é preciso controlar o corpo e manter o equilíbrio. Para caminhar, é necessária mobilidade.
No dia a dia, estas capacidades estão constantemente a trabalhar em conjunto. É por isso que uma pessoa pode ter dificuldade numa tarefa aparentemente simples, como levantar-se, virar-se ou começar a andar, mesmo que consiga realizar alguns exercícios sem problemas.
A força dos membros inferiores é particularmente importante para tarefas como levantar-se e subir degraus. O equilíbrio permite manter o controlo do corpo quando estamos parados e, sobretudo, quando estamos em movimento. A mobilidade permite caminhar, mudar de direção e realizar as tarefas habituais.
Uma intervenção eficaz não deve trabalhar estas capacidades de forma desligada daquilo que a pessoa realmente precisa de fazer.
O objetivo não é conseguir fazer melhor um exercício apenas por si só. O importante é conseguir levantar-se melhor, caminhar melhor, subir escadas com mais segurança ou recuperar uma atividade que deixou de fazer.
As recomendações atuais para prevenção de quedas defendem programas progressivos e adaptados à pessoa, com componentes como equilíbrio, coordenação, força e potência, sempre relacionados com as necessidades e objetivos individuais.
O equilíbrio não é apenas conseguir ficar de pé sem cair
Quando falamos em equilíbrio, é natural pensar em alguém parado, tentando manter-se numa posição. A vida real é muito mais exigente. Precisamos de equilíbrio para nos levantarmos, para nos virarmos, para caminharmos numa superfície irregular, para ultrapassarmos um obstáculo, para alcançarmos um objeto ou para recuperarmos quando fazemos um movimento inesperado. Por isso, o treino de equilíbrio deve evoluir de acordo com a capacidade da pessoa.
Um exercício demasiado fácil pode não produzir adaptação suficiente. Um exercício demasiado difícil pode colocar a pessoa numa situação insegura e aumentar o medo.
A progressão deve encontrar um ponto em que existe desafio suficiente para melhorar, mas segurança suficiente para a pessoa confiar no movimento.
A World Physiotherapy tem reforçado precisamente esta ideia. O risco de queda não depende apenas da condição física de uma pessoa, mas da interação entre a pessoa, a tarefa que está a realizar e o ambiente em que essa tarefa acontece.
A casa também faz parte da equação
Nem todas as quedas acontecem porque a pessoa perdeu capacidades físicas. O ambiente pode facilitar ou dificultar muito a realização de determinadas tarefas. Um tapete solto, uma zona pouco iluminada, uma escada sem apoio adequado, uma superfície escorregadia ou obstáculos num percurso habitual podem tornar uma tarefa mais difícil, sobretudo quando já existem alterações de equilíbrio, força ou visão.
Por isso, quando existe risco de queda, também pode ser importante olhar para o local onde a pessoa vive. Será que consegue chegar à casa de banho em segurança durante a noite?
Consegue entrar e sair da cama facilmente?
Tem espaço suficiente para utilizar o andarilho?
As escadas estão adaptadas às suas capacidades?
É necessário retirar algum obstáculo ou instalar algum apoio?
A OMS inclui a avaliação e adaptação do ambiente entre as estratégias de prevenção de quedas, juntamente com o exercício, a avaliação do equilíbrio e da marcha e a revisão de outros fatores de risco.
Uma casa mais segura ajuda. Não substitui, contudo, a necessidade de trabalhar as capacidades da própria pessoa quando existe perda de força ou mobilidade.
Prevenir quedas não significa deixar de se mexer
Esta é uma das ideias que mais vale a pena reforçar. Quando uma pessoa começa a cair ou demonstra insegurança, é natural que a família tente protegê-la.
“Não vás sozinho.”
“É melhor não subires.”
“Fica sentado.”
Em determinadas situações estas precauções são necessárias. A longo prazo, porém, restringir demasiado o movimento pode contribuir para o problema que se pretende evitar.
Menos movimento significa menos estímulo para os músculos, menos oportunidades de desafiar o equilíbrio e, muitas vezes, menor confiança.
A atividade física adequada continua a ser importante à medida que envelhecemos. A OMS recomenda que os adultos mais velhos com mobilidade reduzida realizem atividade física orientada para melhorar o equilíbrio e prevenir quedas em três ou mais dias por semana, sempre de acordo com as suas capacidades e condições de saúde.
A recomendação clínica atual é igualmente clara em relação a manter a pessoa ativa e reduzir o tempo excessivamente sedentário, adaptando o exercício às suas capacidades.
A questão não é fazer tudo sem risco, é encontrar o nível certo de desafio para aquela pessoa, naquele momento.
O que pode ser trabalhado na fisioterapia?
Não existe um conjunto de exercícios que seja adequado para todas as pessoas. O primeiro passo é perceber o que está limitado e quais são os objetivos daquela pessoa. Dependendo da situação, a intervenção pode incluir:
- Fortalecimento muscular, sobretudo quando a perda de força está a dificultar tarefas como levantar-se, caminhar ou subir escadas.
- Treino de equilíbrio, com desafios progressivos e seguros adequados ao nível de capacidade e confiança.
- Treino da marcha e mobilidade, trabalhando a forma como a pessoa se levanta, caminha, muda de direção ou utiliza um auxiliar de marcha.
- Exercício funcional, utilizando tarefas que tenham relação direta com a vida diária.
- Educação e adaptação de estratégias, ajudando a pessoa e a família a perceberem como lidar com determinadas dificuldades no dia a dia.
A combinação de força, equilíbrio, mobilidade e treino funcional é uma das bases da prevenção das quedas na pessoa idosa. A evidência reunida pela OMS apoia programas de atividade física que combinam estes componentes, e as recomendações atuais do NICE defendem intervenções individualizadas e progressivas.
Quando pode fazer sentido procurar uma avaliação?
Não é preciso esperar por uma queda grave. Uma avaliação pode ser pertinente quando começam a surgir alterações como:
uma queda recente ou várias quedas;
episódios de quase queda;
perda de força nas pernas;
dificuldade crescente em levantar-se;
alterações do equilíbrio;
maior insegurança ao caminhar;
medo de cair;
redução das atividades que anteriormente realizava;
necessidade crescente de ajuda nas tarefas do dia a dia.
A avaliação permite perceber quais são as principais limitações e se existe algum fator que esteja a contribuir para o aumento do risco.
Em determinadas situações podem ser avaliadas capacidades como força dos membros inferiores, equilíbrio e mobilidade através de testes funcionais simples. O seu resultado deve sempre ser interpretado no contexto da pessoa e das restantes informações clínicas.
O objetivo não é atribuir apenas uma classificação de “alto” ou “baixo risco”. A fisioterapia quer perceber o que pode ser melhorado, de forma a prevenir quedas futuras e favorecer um envelhecimento mais seguro e capaz.
Mais do que prevenir uma queda, preservar uma vida ativa
Quando falamos de quedas, é fácil concentrarmo-nos apenas na possibilidade de uma fratura ou de uma ida ao hospital. Para muitas famílias, a verdadeira preocupação é outra, : o receio de que a mãe deixe de conseguir levantar-se sozinha. Que o pai deixe de sair de casa. Que uma simples ida às compras passe a depender de outra pessoa. Que uma queda marque o início de uma perda de autonomia.
Prevenir quedas é também tentar evitar esse caminho!
Trata-se de preservar força, equilíbrio, mobilidade e confiança. Significa ajudar uma pessoa a continuar a fazer aquilo que é importante para ela, dentro das suas capacidades e com o menor risco possível.
Uma pessoa idoas não precisa de fazer tudo sozinha para manter a autonomia. Precisa, sempre que possível, de manter a capacidade de participar na própria vida.
Fisioterapia ao domicílio
Quando existem dificuldades de força, equilíbrio, mobilidade ou confiança, uma avaliação no próprio ambiente onde a pessoa vive pode ser particularmente útil. É possível perceber como se movimenta dentro de casa, quais as tarefas que são mais difíceis e quais os obstáculos que podem estar a limitar a sua segurança. A partir daí, a intervenção pode incluir fortalecimento, treino de equilíbrio e marcha, mobilidade e tarefas funcionais relacionadas com aquilo que a pessoa realmente precisa de fazer.
No meu trabalho com pessoas idosas, o objetivo não é apenas melhorar um exercício. Quero ajudar cada pessoa a mexer-se melhor, recuperar confiança e preservar a maior autonomia possível no seu dia a dia.
Se nota que um familiar começou recentemente a perder força, equilíbrio ou segurança ao caminhar, uma avaliação pode ser um primeiro passo para perceber o que está a acontecer e o que pode ser trabalhado.
Fontes
Organização Mundial da Saúde (OMS), Falls e recomendações sobre atividade física e prevenção de quedas.
NICE, Falls: assessment and prevention in older people and in people 50 and over at higher risk, 2025.
World Physiotherapy, informação sobre prevenção de quedas em adultos mais velhos




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